Esta análise foi publicada originalmente na edição 185 da revista Top Gear (2008).
Num laboratório discreto, bem escondido no Norfolk, um grupo de homens e mulheres andou a fazer experiências. Com cânhamo. Que - para quem não associa isto a substâncias narcóticas - é canábis. E, para que ninguém tenha dúvidas, há até um autocolante com uma folha serrilhada debaixo da tomada de ar traseira a sublinhar a mensagem.
A diferença é que estas pessoas são da Lotus. E, em vez de “andar pedradas” com a planta, decidiram usá-la para construir algo: o Eco Elise. Acabei de sair do carro e fiquei genuinamente surpreendido. Porque, por trás de toda a sua vertente ecológica (já lá vamos), isto continua a ser, no essencial, um Elise S. E o Elise S é, simplesmente, um dos melhores carros que se pode comprar - sobretudo se a condução for a sua praia.
Cânhamo no Lotus Eco Elise: resistência e carroçaria
Voltando ao cânhamo: na sua versão legal, é um material extremamente útil para fabricar coisas. Coisas como painéis de carroçaria. O princípio aproxima-se do da fibra de carbono: quando é tecido, ganha uma robustez impressionante.
Basta olhar para este Elise: a asa traseira, o conjunto frontal, o tejadilho e até os bancos - tudo feito a partir de cânhamo.
E há outro argumento forte: do ponto de vista ambiental, as culturas de cânhamo absorvem CO2 da atmosfera, o que as torna neutras em carbono. Um recado direto para quem resolve tudo com compensações.
Energia solar e materiais locais
O cânhamo é apenas uma das medidas “verdes” presentes neste Elise. O pessoal desse laboratório é do tipo de ambientalista que nos interessa: em vez de discursos sobre ecologia de fachada, fecharam-se durante algumas semanas e trouxeram para a mesa soluções que têm utilidade real.
Veja-se o painel solar no tejadilho. Funciona mesmo: alimenta equipamentos como o ar condicionado e o sistema de som, poupando trabalho ao alternador - e isso traduz-se em menos consumo de combustível. Porque é que ninguém se lembrou disto mais cedo? Talvez porque não era nada simples: transformar o painel em algo flexível, capaz de acompanhar as curvas da carroçaria, exigiu engenharia a sério.
Depois há a lã. Os revestimentos interiores têm um toque macio e felpudo e a matéria-prima foi obtida localmente, perto da base da Lotus em Hethel (tal como o cânhamo). Resultado: uma pegada de carbono minúscula - quase a de um esquilo. E sem corantes artificiais: é tão natural como era quando ainda estava… no sítio do carneiro.
Pintura à base de água e condução eficiente
A seguir, a tinta. A Lotus recorreu a uma solução à base de água em todas as camadas - uma estreia no sector. Para além de ser menos poluente, o processo de pulverização também consome menos energia do que as tintas tradicionais à base de solventes.
Por fim, o Eco traz três luzes verdes no painel de instrumentos, como um semáforo exageradamente otimista. Se conseguir manter as três acesas, significa que está na mudança certa para obter a máxima economia de combustível.
Menos peso, mesma base Elise S
Neste modelo, a Lotus preferiu concentrar-se nos materiais, e não nos motores. Ainda assim, é difícil não pensar no que seria juntar isto ao sistema tri-combustível da marca: teria nas mãos o derradeiro carro ecológico. Por enquanto, não o pode comprar, mas se o entusiasmo daquela equipa do Norfolk se mantiver, não me admirava nada que esta tecnologia aparecesse noutros automóveis - e em breve.
E, claro, por ser um Lotus - e porque cânhamo e lã são leves - o conjunto não engorda. Até o sistema de som perdeu 1.5kg face ao anterior. E a soma dessas pequenas poupanças faz diferença no total: no fim de contas, o Eco pesa menos 32kg do que um Elise S, melhorando a relação peso/potência sem ter de passar um mês a roer cenouras. Disse-lhe que era o nosso tipo de verde.
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