Esta análise foi publicada originalmente no número 109 (2002) da revista Top Gear.
Reacções na rua e o choque visual do Renault Vel Satis
Os miúdos das BMX costumam divertir-se à grande. Só que aqueles, encostados aos selins recuados das máquinas dos craques das rampas, estavam claramente a passar um bom bocado sem precisarem de enfrentar um table top, saltar num half-pipe ou aterrar mais uns quantos bunny hops.
Imagino que consiga adivinhar de onde vinha tanta diversão. Os franceses sempre gostaram de fazer diferente, mas, no caso do Vel Satis, parece que os designers - fechados no estúdio de design da Renault, em Paris - passaram a linha e acabaram por cair num abismo de fealdade.
Os tais “bandidos das BMX” faziam gestos a fingir que iam vomitar; é, sem exagero, a reacção mais dura que algum carro me provocou. De sempre.
Na cabeça deles, provavelmente, se não for um Benz ou um BMW, nem merece atenção. E isso não é bom sinal. Se a geração “ligada” está a crescer já com opiniões geladas sobre a Renault, por culpa de carros como o Vel Satis, quão manchada estará a imagem da marca daqui a dez ou vinte anos?
Vida a bordo: deixando as opiniões de lado
Seja como for, vou cortar o lado mais subjectivo. Aposto que já tem a sua própria opinião sobre o que a Renault anda a fazer. Por isso, vamos ao que interessa: como é viver com este carro.
Motor 2.2 dCi: ruído, consumo e prestações
Comecemos pelo diesel. Dentro do que se espera de um “rattler”, este não é dos piores. A frio, no arranque, não deixa esquecer o que está por trás do nariz pouco agradável do Vel Satis, mas continua a ser melhor do que qualquer um daqueles quatro cilindros da VW. O turbodiesel de 2.2-litres, quatro cilindros, recorre a injecção directa common-rail e faz 39.8mpg no ciclo combinado. Ainda assim, basta olhar para a concorrência para perceber que este valor fica abaixo da média - o que desilude, sobretudo tendo em conta que vem equipado com uma caixa de seis velocidades.
Torque e andamento não lhe faltam. A partir das 1,500rpm, o dCi dá a sensação de estar já em pleno, o que permite rolar descontraidamente com 236Ib ft de binário e passar de caixa cedo, logo às 2,500rpm. Se lhe der rédea solta, também anda com vontade e, graças a um bom nível de insonorização de série, não vai andar a encolher-se com a barulheira e a confusão mecânica.
Direcção, comportamento e conforto de marcha
O problema é que, quer goste de conduzir quer prefira ser mimado, o Vel Satis não corresponde. A direcção tem mais assistência do que um camião pesado, e o comportamento é praticamente tão gratificante quanto isso. E quem estiver à espera de um conforto tipo “almofada”, como contrapartida, acaba por levar com uma afinação irregular e saltitona, mais própria de um compacto desportivo do que de um executivo.
Interior espaçoso, mas com falhas de construção
Pelo menos os bancos, em si, são confortáveis - desde que consiga acertar com o mar de regulações ao seu gosto. Pena é que o mesmo cuidado não tenha sido aplicado ao resto do habitáculo, que é amplo mas sofre com alguns acabamentos e encaixes fracos, sobretudo na zona do porta-luvas e da consola central.
A Renault, é certo, arriscou. Mas custa-me acreditar que existam muitos clientes dispostos a alinhar na postura anti-estilo da marca ao ponto de trocarem as suas rodas alemãs por um Vel Satis. Ainda por cima depois de o experimentarem na estrada.
Veredicto e ficha técnica
Veredicto: Ainda é preciso mais afinação antes de o Vel Satis conseguir derrubar os preconceitos do segmento executivo
2.2-litre 4cyl diesel
150bhp, FWD
0-60mph in 10.9secs, max speed 124mph
£23,085
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