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Lamborghini Aventador LP 780-4 Ultimae: o adeus final ao V12

Carro desportivo amarelo brilhante estacionado numa garagem moderna com chão em mármore cinzento.

Faz sentido dizer que o melhor ficou para o fim quando se olha para o Lamborghini Aventador Ultimae, a derradeira série de despedida do superdesportivo italiano.

Entre a versão de carroçaria fechada (350 exemplares) e a variante descapotável (250 unidades), só alguns privilegiados poderão pôr-lhe as mãos - um já foi entregue a um cliente português e há ainda a possibilidade de mais dois chegarem a Portugal. Para todos os outros, resta esperar pelo sucessor, que vai recorrer a propulsão híbrida para elevar ainda mais um nível de desempenho que já é assombroso.

O Aventador entrou em cena na viragem de 2011 para 2012 para ocupar o lugar do Murciélago e, desde então, foi evoluindo por etapas: SV em 2015, S em 2017 e, em 2018, o muito especial SVJ, uma verdadeira peça de engenharia.

Agora, para encerrar esta história em grande - e com algum atraso motivado pela pandemia - surge o Aventador Ultimae. Este acrescenta 10 cv ao SVJ, fixando a potência nos 780 cv, mantendo, porém, o binário inalterado (720 Nm).

Ainda assim, este último Aventador aproxima-se mais do S do que do SVJ em aspetos como as afinações do chassis e a asa traseira móvel (no SVJ é maior e fixa). Aqui, a asa tem três posições, definidas pelo modo de condução selecionado e pela velocidade: sobe para a altura máxima acima dos 100 km/h e desce abaixo dos 60 km/h.

“O último e mais puro motor V12”

“O Aventador LP 780-4 é animado pelo último e mais puro motor V12 de produção em série,” explica Stephan Winkelmann, Presidente da Automobili Lamborghini, porque “proporciona a indispensável experiência de um motor de 12 cilindros em termos da sua conceção inimitável e soluções técnicas que resultam na mais emocionante experiência de condução. É o Aventador final, que encerra uma era extraordinária”.

E os números ajudam a sustentar a afirmação: 120 cv/l de potência específica, um valor notável num motor atmosférico, confirmam a linhagem desta unidade.

Ao mesmo tempo, é impossível ignorar que o tempo passou pelo Aventador - e um dos seus adversários mais incómodos está logo ali, a poucos metros, sob o mesmo teto de fábrica.

Falamos do Huracán, o “irmão mais novo” que, sobretudo nas versões STO e Performante, tem feito o Aventador “olhar de lado”, graças a tecnologia moderna diretamente inspirada na competição e particularmente apreciada por quem os leva para pista.

Nada disto invalida que o 6.5 V12 atmosférico do Lamborghini Aventador LP 780-4 Ultimae pertença a outra dimensão: é diferente, mais imponente, mais cerimonial.

Em prestações, consegue cumprir os 0–100 km/h em menos de três segundos e precisa de menos de nove segundos para duplicar essa velocidade. E, se houver reta suficiente em circuito, a instrumentação digital pode mesmo mostrar 355 no velocímetro.

Para estas acelerações quase irreais contribui, naturalmente, a força do V12, mas também a relação peso/potência de apenas 1,99 kg/cv (peso a seco), que se torna esmagadora quando se estica o regime para lá das 8500 rpm.

E a travagem não fica atrás: este italiano com 1,55 toneladas de peso a seco (menos 25 kg do que o Aventador S) consegue parar em 30 m numa travagem forte iniciada aos 100 km/h.

Cheira a corridas

O Aventador LP 780-4 Ultimae coupé estreia-se com uma pintura de dois tons, cinzento (Grigio Acheso) sobre cinzento (Grigio Teca). Junta-lhe um novo para-choques dianteiro, pensado para aumentar o apoio aerodinâmico, e pormenores como o contorno do lábio frontal e os “dentes” em Rosso Mimir, com apontamentos a condizer nas aletas traseiras do difusor em fibra de carbono.

A lógica bicolor prolonga-se no habitáculo, dominado por couro preto e Alcantara, com pespontos e remates em cinzento, além das inserções de assento em “Y” em Alcantara preta.

Os bancos tipo baquet do Aventador Ultimae são os mesmos do Aventador S. Trazem “Ultimae” bordado na almofada do assento (com contorno no mesmo vermelho Rosso Mir) e, no pilar do lado do condutor, aparece o número do exemplar dentro desta série limitada. Um conjunto de fibra de carbono de série reforça o ambiente de pista e, por fora, existe a opção de acabamento mate para acompanhar as cores exteriores menos brilhantes.

A entrada neste universo exclusivo faz-se com a porta de abertura em tesoura e a sensação, ao instalar-nos, tem algo de “Guerra das Estrelas”. À frente, o painel de instrumentos digital muda de acordo com o modo escolhido e com o espírito de quem se senta ao volante - mais condutor ou mais piloto.

A qualidade de materiais e montagem não choca, considerando que o preço se aproxima do de um apartamento num condomínio de luxo (ainda que dispensássemos, com gosto, as cabeças de parafuso à vista em vários pontos).

Como «encolher» um Lamborghini

Antes de carregar no botão, ao estilo de nave espacial, colocado no centro da intimidadora consola, convém recapitular o pacote técnico: monocoque em fibra de carbono, tração às quatro rodas (Haldex), caixa manual robotizada de sete velocidades (mudanças tão rápidas como 50ms), suspensão por varões e o V12 montado em posição Longitudinal Posterior (o “LP” na designação).

E há ainda o eixo traseiro direcional - a grande novidade quando o Aventador S apareceu - tornando-o no primeiro Lamborghini de produção em série com quatro rodas direcionais.

A baixa velocidade, as rodas traseiras podem rodar até 3º no sentido oposto ao das dianteiras. O efeito é reduzir (virtualmente) a distância entre eixos até 5 cm, com ganhos claros: maior agilidade, menor diâmetro de viragem e mais eficácia em curva.

Isso nota-se também numa resposta mais rápida e mais precisa da direção, que tem desmultiplicação variável: exige mais rotação do volante a baixa velocidade e menos a alta, ajudando a negociar curvas apertadas com menor amplitude de braços.

Quando a velocidade sobe, as rodas traseiras passam a acompanhar as dianteiras, até um máximo de 1,5º. Assim, a distância entre eixos aumenta (virtualmente) até 7 cm, beneficiando a estabilidade e a forma como o carro reage a movimentos do volante, sobretudo em mudanças rápidas de faixa.

Acordar a «fera»

Com isto dito, é avançar. Um toque leve no ameaçador botão vermelho na consola central e é como aproximar a capa vermelha do touro que, a partir daqui, se revela irritado.

O som com que desperta é um aviso claro e, por isso, vale a pena tratar o acelerador com respeito, ainda mais com algumas zonas de estrada húmida. Um clique na patilha direita e os primeiros quilómetros fazem-se no modo de condução Estrada - o Aventador Ultimae, por comparação, no seu registo mais dócil.

Com esta faceta relativamente tranquila, quase dá para tentar passar despercebido em cidade, embora isso seja sempre uma missão complicada ao volante de 4,87 m de automóvel com linhas tão provocadoras. Mitja Borkert, diretor de design da Lamborghini, resumiu bem a inspiração: “o design exterior do Aventador é inspirado nos contornos de naves espaciais, caças de guerra e… em cobras venenosas”.

Emoções ao rubro na «arena»

Ao escolher o modo Desporto, o segundo nesta “escala de Richter”, cada mudança faz-nos sentir um abanão mais forte e a direção reage com maior prontidão.

Subindo mais um patamar nesta escada de sensações, o Aventador cala a “arena”. Grita e rebenta, agarrado com convicção às quatro rodas, fixa a curva seguinte com olhar feroz e inclina-se para vencer a própria inércia. A respiração (do motor) torna-se permanentemente ofegante e as passagens de caixa ficam brutais, com estalidos que lembram pedras sugadas do asfalto e engolidas sem hesitação.

Lembro-me de ter perguntado ao diretor técnico Maurizio Reggiani porque insistia numa caixa tão rude. A resposta foi direta: “colocar aqui uma caixa de dupla embraiagem seria estragar o Aventador com tiques de civismo artificiais”. Uns concordarão, outros dirão que, nos modos mais desportivos, o carro pode ficar demasiado desestabilizado em curvas muito rápidas feitas com forte apoio em pista.

Além disso, num uso quotidiano mais calmo, esta transmissão está longe da suavidade de uma caixa de dupla embraiagem (que a Lamborghini instalou - e bem - no Huracán). Reggiani acrescentou-me ainda: “esta caixa é também a mais indicada para o Aventador porque ocupa menos espaço - e o motor V12 é bem grande… - e por ser mais leve, o que tem muita importância para nós. Repare, o eixo traseiro direcional colocou mais 6 kg em cima, que depois tivemos de eliminar com mais fibra de carbono e um sistema de escape mais leve”.

Como já referi, o piso não está totalmente seco, mas percebe-se que o Aventador Ultimae consegue manter-se previsível quando a aderência não é ideal, graças à tração integral e ao controlo de estabilidade. De novo em modo Estrada, ou seja, com “rédea mais curta”, fica ainda mais claro.

A tração 4×4 está afinada para favorecer um comportamento mais sobrevirador (com maior tendência a libertar a traseira), mas o envio de binário varia com o modo de condução selecionado: em Estrada, a repartição é 40% à frente e 60% atrás; em Desporto, pode chegar a um máximo de 90% atrás; e em Pista assume 20%-80%. Ainda assim, são valores de referência que mudam ativamente conforme velocidade, piso, aderência, etc., sempre dentro dos limites indicados.

Existe também o programa Ego, que permite combinar motor, direção e suspensão ao gosto do condutor, num total de até 24 combinações.

O equilíbrio do chassis pode ser arrebatador e os travões merecem aplauso: mesmo sob uso contínuo, não há qualquer sinal de fadiga no pedal esquerdo, que comanda pinças de perfil competitivo a morder discos carbo-cerâmicos (de série) com a mesma agressividade, vez após vez.

O último capítulo

Assim se fecha, de forma particularmente especial, o derradeiro capítulo do Aventador. O seu sucessor (chega em 2023) será, com toda a certeza, mais rápido, mais civilizado e menos poluente (vai conjugar o V12 com uma máquina elétrica), mas dificilmente repetirá estas emoções brutas e puras de um dos últimos superdesportivos da “velha guarda”.

Por 552 000 euros, pode ser seu… ou então pode tentar literalmente “pescar” um, se tiver forma de descer ao fundo do oceano Atlântico para recuperar um dos 15 Aventador Ultimae que se afundaram ao largo dos Açores em março, no cargueiro “Felicity Ace” e que, desde então, permanecem submersos a 3000 m de profundidade…

Especificações técnicas

Lamborghini Aventador LP 780-4 Ultimae
MOTOR
Arquitetura
Capacidade
Distribuição
Alimentação
Potência
Binário
TRANSMISSÃO
Tração
Caixa de velocidades
Chassis
Suspensão
Travões
Direção / N.º de voltas
Diâmetro de viragem
Dimensões e Capacidades
Comp. x Larg. x Alt.
Entre eixos
Bagageira
Depósito
Peso
Repartição de peso
Pneus
Prestações, Consumos, Emissões
Velocidade máxima
0-100 km/h
0-200 km/h
Consumo misto
Emissões CO₂

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