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Reino Unido prepara recuo no mandato ZEV enquanto a UE mantém metas de emissões

Carro desportivo elétrico azul a ser carregado em espaço moderno com vista para o rio e o Big Ben em Londres.

Enquanto a União Europeia (UE) continua praticamente intransigente no cumprimento das metas de emissões, o Reino Unido prepara-se para recuar nas quotas obrigatórias de vendas de elétricos previstas no mandato ZEV (veículos de zero emissões).

Keir Starmer, primeiro-ministro britânico, deverá apresentar um calendário revisto para este mandato, que estabelecia que 80% dos automóveis novos vendidos teriam de ser de zero emissões até 2030, aumentando para 100% até 2035. Para este ano, a fasquia apontada é de 33%.

Flexibilização das regras

A mudança surge depois de, no ano passado, a meta de 28% de vendas de automóveis elétricos ter falhado, ficando aquém do objetivo, nos 23,4%. Perante este desempenho - que as previsões apontam poder repetir-se este ano - Starmer já sinalizou a intenção de cortar de forma expressiva as quotas exigidas, abrindo margem para a comercialização de mais modelos com motor de combustão até ao final da década.

De acordo com informações avançadas pela Autocar, o Governo britânico estará a preparar uma descida da meta de 80% em 2030 para 50%. Na prática, isto implica que, no final da década, as vendas de automóveis novos no mercado britânico terão de ser, no mínimo, 50% elétricos, ficando o restante espaço reservado a veículos que ainda recorram a motor de combustão.

Ainda assim, esses automóveis a combustão terão de incluir eletrificação parcial (híbridos), uma vez que a proibição de venda de carros novos movidos exclusivamente por motores de combustão deverá manter-se.

Este é já o terceiro recuo do Governo britânico nas metas estabelecidas. No ano passado, foi confirmado que híbridos, híbridos com carregamento externo e veículos comerciais com motor de combustão poderiam continuar a ser vendidos até 2035.

Além disso, o mecanismo de créditos que permite às marcas acumular ou antecipar créditos para cumprir objetivos foi prolongado de 2026 para 2030, passando também a permitir transferências entre veículos ligeiros e comerciais.

Indústria pede revisão urgente

Mike Hawes, diretor-executivo da Society of Motor Manufacturers and Traders (SMMT), defendeu que se tornou imperativa uma revisão das metas, alertando que a adesão dos consumidores não está a acompanhar o nível de ambição definido pelo Governo.

“Metas por si só não reduzem as emissões. O que reduz é a adoção de novos veículos. Consumidores e empresas só farão a transição quando as condições e os custos forem adequados. O setor automóvel investiu muito e continua a investir para criar essas condições”, adicionou.

O dirigente chamou ainda a atenção para os descontos muito elevados que os fabricantes tiveram de suportar para tentar cumprir as quotas, considerando-os insustentáveis: cerca de cinco mil milhões de libras (5,7 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual), o que corresponde, em média, a 11 mil libras (12 700 euros) por cada veículo elétrico vendido. Um quadro semelhante ao verificado em 2024, agravado pela inexistência de incentivos governamentais à compra de automóveis elétricos.

O mandato ZEV no Reino Unido continua, entretanto, a contemplar coimas severas para os construtores que falhem as quotas: em 2024, a multa ascendia a 15 mil libras (cerca de 17 329 euros) por cada veículo vendido abaixo da meta estipulada.

“É evidente que as premissas que sustentavam o mandato já não existem. Ele foi concebido para um mercado com maior procura, maior estabilidade e energia mais barata, não para o mercado que temos hoje. Uma revisão urgente do mandato ZEV é, portanto, essencial. Não se trata de diminuir a ambição, mas sim de restaurar a credibilidade. A regulamentação deve refletir as condições do mundo real”, concluiu o diretor-executivo do SMMT.

Nem todos celebram

A decisão do Governo está longe de reunir consenso. O anúncio provocou críticas intensas entre empresas de carregamento de veículos elétricos, fornecedores de componentes e organizações ambientalistas.

Vicky Read, dirigente da ChargeUK, avisou que enfraquecer o mandato ZEV pela terceira vez poderá travar o investimento em infraestruturas de carregamento, colocar em causa toda a transição elétrica e prejudicar a imagem do Reino Unido como destino fiável para investimento.

Já Andy Palmer, antigo executivo da Nissan, foi mais duro, comparando a volatilidade regulatória britânica à condução errática de um táxi londrino - um comentário que, segundo os críticos, reflete a perda de previsibilidade que tem marcado a política automóvel do país nos últimos anos.

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