O Ford Fiesta já não é vendido novo, mas no mercado de usados continua a ser uma das recomendações mais fáceis de fazer.
O fim do Ford Fiesta é, ainda hoje, uma das escolhas mais difíceis de justificar na história recente do sector automóvel. A Ford explicou a decisão com argumentos de rentabilidade, mas o resultado foi a saída de cena de um dos modelos mais interessantes do segmento.
Ao longo de quase 50 anos, foi um dos alicerces da Ford na Europa. Sempre foi um carro descomplicado e acessível e, em várias gerações (sobretudo a partir da quarta), conseguiu algo pouco comum: satisfazer tanto quem o via apenas como transporte, como quem tinha prazer em conduzir.
Quando a geração mais recente chegou, em 2017, a fórmula manteve-se fiel ao que já era conhecido. A Ford elevou a qualidade de construção, atualizou a tecnologia a bordo e melhorou o conforto, sem estragar aquilo que sempre separou o Fiesta de muitos rivais: o seu comportamento em estrada.
Com a produção terminada desde 2023, o Fiesta mantém-se como uma escolha quase obrigatória no mercado de usados. Neste guia, a aposta recai no 1.0 EcoBoost (três cilindros, 1,0 litro, turbo), a motorização mais procurada, que foi recebendo evoluções importantes ao longo desta geração - incluindo a chegada de versões com sistema híbrido ligeiro.
No Pisca Pisca, é possível encontrar unidades a partir de cerca de 9500 euros, enquanto os exemplares mais recentes e melhor equipados podem aproximar-se dos 22 500 euros.
A última geração do Fiesta
A oitava geração do Fiesta, apresentada em 2017, não tentou reinventar nada. A Ford sabia que o produto era sólido e preferiu evoluir apenas onde fazia sentido.
As dimensões continuaram compactas, o estilo ficou mais adulto e o conjunto envelheceu de forma convincente. A atualização de 2022 trouxe uma frente com aspeto mais atual, faróis LED de série e uma imagem ligeiramente mais requintada.
A parte positiva é que não há registo de problemas estruturais recorrentes na carroçaria. Como em qualquer usado, o essencial é confirmar se existem indícios de reparações mal feitas ou diferenças de cor entre painéis.
Salto qualitativo evidente
Face ao modelo anterior, esta geração deu um salto notório. Os materiais evoluíram, os encaixes ficaram mais consistentes e o interior passou a transmitir uma perceção de qualidade mais próxima do topo da classe.
O sistema multimédia SYNC 3 continua a mostrar como, muitas vezes, a simplicidade ganha a uma lista interminável de “extras”. Não se destaca pelo tamanho do ecrã nem pelos grafismos, mas permanece rápido, fácil de usar e compatível com Apple CarPlay e Android Auto (sempre por cabo).
Nos exemplares mais recentes, a instrumentação digital introduzida com a atualização deu ao habitáculo uma imagem mais moderna.
As queixas mais frequentes ficam, sobretudo, por conta de alguns ruídos parasitas vindos dos plásticos interiores, algo relativamente comum em carros que já passaram dos 100 000 km.
O motivo pelo qual ainda é uma referência
Mesmo passados vários anos desde o lançamento, bastam poucos quilómetros para perceber porque é que tantos jornalistas especializados - incluindo nós - colocavam o Fiesta no topo do segmento.
A direção é rigorosa, o chassis reage de forma natural e há uma leveza nas respostas que muitos modelos atuais já perderam. Não é um desportivo, nem pretende ser - com exceção do muito irrequieto Fiesta ST. Ainda assim, tem a capacidade de tornar deslocações banais um pouco mais interessantes. E essa continua a ser uma qualidade rara.
EcoBoost também evoluiu onde era mais preciso
O 1.0 EcoBoost sempre foi conhecido por ser um dos motores “mil” mais vivos da categoria, embora nem sempre o mais económico. Existiu com 95 cv, 100 cv, 125 cv e 140 cv nas versões convencionais, e mais tarde recebeu, em 2020, as variantes EcoBoost Hybrid (na prática, um híbrido ligeiro de 48 V) com 125 cv e 155 cv.
É aqui que entra a recomendação mais relevante deste guia. As primeiras versões do 1.0 EcoBoost carregam a reputação associada à correia de distribuição banhada em óleo - e não foram só os PureTech da Stellantis (e ex-PSA) a usar esta solução. Mesmo que nem todos os motores tenham dado problemas, a verdade é que cumprir a manutenção à risca é absolutamente determinante.
A partir de 2020, a Ford passou a oferecer versões com sistema híbrido ligeiro de 48 V, que trouxeram várias alterações, incluindo uma particularmente importante: distribuição por corrente em vez de correia, o que reduz de forma significativa o risco associado aos primeiros EcoBoost. Atenção: este motor mantém uma segunda correia banhada a óleo, destinada à bomba de óleo, e essa não desapareceu com a introdução das variantes com sistema híbrido ligeiro.
Além disso, o sistema híbrido ligeiro melhorou a resposta a baixas rotações e ajudou a baixar consumos. De acordo com dados de utilizadores reais disponíveis no Spritmonitor, a média real ronda os 6,1 l/100 km, enquanto as versões EcoBoost Hybrid conseguem, em média, um pouco melhor: 5,8 l/100 km. Não são números de referência absoluta, mas continuam a ser valores competitivos no segmento.
O 1.0 EcoBoost foi associado a vários tipos de caixa: manuais de cinco velocidades (até 2019 em algumas versões) e de seis; e duas automáticas. A primeira era uma automática tradicional com conversor de binário e seis relações, que foi substituída em 2020 (com as motorizações com sistema híbrido ligeiro) por uma de dupla embraiagem com sete relações, chamada Powershift.
Quanto pode custar uma avaria?
Num Ford Fiesta usado, a maior fonte de preocupação continua a ser a conhecida correia banhada em óleo das primeiras unidades do 1.0 EcoBoost.
Nos carros anteriores a 2020, fazer a substituição preventiva pode ficar entre 700 euros e 1200 euros, variando consoante a oficina e as peças incluídas na intervenção. Adiar este serviço pode sair muito caro: quando a correia se degrada, os resíduos podem contaminar o circuito de lubrificação e causar danos sérios no motor.
Outras intervenções relativamente habituais incluem a troca de componentes do circuito de refrigeração (entre 100 euros e 250 euros); a limpeza das válvulas de admissão devido à acumulação de carvão, por se tratar de um motor de injeção direta (entre 250 euros e 400 euros); e sensores e pequenos elementos eletrónicos (normalmente abaixo de 200 euros).
Ao longo da vida comercial, existiram também campanhas de recolha relacionadas com cintos de segurança, cablagens do sensor da cambota, separadores de óleo e alguns componentes da suspensão dianteira. Para verificar quais ocorreram, consulte o relatório da Motor CV:
Quanto custa um Ford Fiesta usado?
Desde o fim da produção, em 2023, os valores do Ford Fiesta têm-se mantido relativamente estáveis. No Pisca Pisca, os exemplares fabricados entre 2017 e 2019 aparecem, regra geral, entre os 9500 euros e os 15 000 euros, dependendo da quilometragem e do equipamento.
Já os EcoBoost Hybrid produzidos entre 2020 e 2023 surgem normalmente entre os 12 500 e os 22 500 euros.
As versões ST-Line continuam a liderar a procura, graças ao visual mais desportivo e a uma dotação de equipamento mais completa, o que ajuda a explicar a valorização superior destas variantes no mercado de usados.
Nossa escolha
Entre as várias versões com esta mecânica, a nossa recomendação vai para o Ford Fiesta 1.0 EcoBoost Hybrid 125 cv ST-Line, produzido entre 2020 e 2023.
É a opção que melhor equilibra desempenho, eficiência, equipamento e maior tranquilidade mecânica. Oferece potência suficiente para qualquer cenário de utilização, consumos bastante razoáveis e tira partido das melhorias aplicadas pela Ford na fase final da vida do modelo.
Também preferimos a caixa manual de seis relações à automática Powershift de sete. A manual encaixa melhor no carácter do motor e do carro, apesar da evolução muito grande da dupla embraiagem face à antiga automática com conversor de binário. Ainda assim, em cidade, a Powershift nem sempre é a mais suave e tende a agravar consumos neste contexto. Em autoestrada compensa, porque permite circular a rotações mais baixas, e tem mostrado ser um componente fiável.
Alternativas ao Ford Fiesta 1.0 EcoBoost
Há várias alternativas ao Fiesta, mas para quem privilegia a condução, o SEAT Ibiza 1.0 TSI é, muito provavelmente, a escolha mais forte. Este espanhol com ADN alemão continua a ser uma referência dinâmica no segmento, oferecendo mais espaço e uma abordagem mais racional. Mantém-se como uma das propostas mais equilibradas da categoria.
O Renault Clio TCe 100 foca-se mais no conforto e num interior mais atual, enquanto o Volkswagen Polo 1.0 TSI é, talvez, o mais refinado e sólido do segmento - mas também o mais caro e menos envolvente para quem gosta de conduzir. Por fim, o Peugeot 208 1.2 PureTech destaca-se pelo estilo e por um interior mais arrojado, mas, tal como nos EcoBoost, é essencial ter atenção redobrada à manutenção do motor PureTech: também utiliza correia de distribuição banhada em óleo.
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