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Aston DBS 770 Ultimate: o último V12 da velha guarda da Aston Martin

Carro desportivo preto em movimento numa estrada com árvores verdes desfocadas ao fundo.

Aston DBS – não é aquele Aston Martin antigo?

Sim. Este é, literalmente, o derradeiro representante da velha guarda. Já viste o novo DB12, com um interior de fazer inveja e, debaixo do capot, apenas oito cilindros. É nessa direcção que a Aston Martin está a apontar. O DBS 770 Ultimate é o retrato do caminho que a marca fez até aqui.

Deixa adivinhar: mais potência, jantes do Victor e carbono por todo o lado?

Um pouco cínico, mas à primeira vista não andas longe. Mais pressão de turbo e pequenos acertos de calibração no V12 biturbo de 5,2 litros dão ao DBS aquilo que, honestamente, parecia ser a última coisa de que precisava: ainda mais força. O modelo “normal” já tinha 715bhp - um número que impressiona, sobretudo quando um DB11 com 600bhp já podia parecer um bocado irrequieto, principalmente com piso molhado.

No Ultimate somam-se mais 44bhp, chegando aos 759bhp, ou seja, 770PS no sistema métrico. O motivo para o binário não ter subido também, face aos já absurdos 664lb ft (c. 900Nm), é simples: se a Aston Martin desse rédea totalmente solta a este motor, ele espirrava a caixa automática de oito velocidades para fora da traseira do carro.

No resto, como já tinhas percebido, há aquelas jantes de 21 polegadas em “teia de aranha”, deliciosamente trabalhadas, inspiradas nas opcionais do Valkyrie e montadas no magnífico Victor one-off. Pequenos retoques aerodinâmicos em fibra de carbono (repara no splitter dianteiro revisto e nas saias laterais) são praticamente as únicas pistas de que estás ao volante de um DBS de edição limitada a 300 unidades.

Mas tem um ar brutal, não tem?

Presença é coisa que não lhe falta. O DBS é um colosso - quase um barco-casa -, mas as proporções estão tão bem resolvidas que o resultado é elegante. E há um fenómeno curioso: na rua, a malta derrete-se por ele, enquanto um Ferrari 812 Superfast ou qualquer Lamborghini V12 tende a colher desprezo e gestos normalmente reservados à bancada visitante num estádio.

E pouco importa quantas tempestades financeiras a Aston Martin já atravessou. Também não interessa quem manda na empresa, ou se as vendas estão a correr bem ou mal. O público britânico parece ter um carinho inesgotável por este carro: é um tesouro nacional amado por todos. É como andar pela cidade a conduzir a Adele.

Só que o DBS soa melhor?

O V12 tem aquela nota cara, de muitos cilindros, que um V8 nunca consegue reproduzir na totalidade. Mas, ao contrário dos DB9 e Vanquish antigos, esta fase turbo do V12 da Aston já não é tão “musical”. Ainda assim, ao ralenti, se tocas no acelerador, em vez de um grito italiano tens um rosnar sombrio - e o carro inteiro mexe-se, como se o V12 estivesse a tentar fugir debaixo do enorme capot tipo concha em fibra de carbono.

Mas, no fim do dia, isto é mais do mesmo da Aston Martin, certo? Potência a mais, beleza a mais, e dinheiro a menos para fazer um carro como os alemães…

Sim, podem cancelar a fanfarra e guardar as bandeirinhas: a verdade é que, muitas vezes, os Aston não estão exactamente na linha da frente. O Vantage leva uma tareia de um 911. O Continental da Bentley é um GT mais completo do que o agora substituído DB11. A Ferrari parece estar noutro século. O DBX é mesmo muito bom… mas não é duas vezes melhor do que um Cayenne. Que custa metade.

Por isso, seria fácil perdoar à Aston se simplesmente lançasse o DBS Ultimate com um pouco mais de pulmão, uns enfeites de design e seguisse em frente. Só que não foi isso que aconteceu. Pegou no velho cavalo de guerra e tratou-o como deve ser.

A direcção assistida foi recalibrada para transmitir mais sensibilidade e passou a estar fixada ao carro de forma mais rígida, com menos borracha nos apoios. As afinações da suspensão (GT, Sport e Sport Plus) foram completamente refeitas. E alguém, ao que parece, chamou um curandeiro para fazer magia negra na caixa.

Nem penses dizer “é o carro que sempre devia ter sido”.

Eu sei - é um cliché horrível e preguiçoso. E a Aston Martin tem o hábito de o merecer mais vezes do que a maioria. Mas, bolas, pelos deuses, o Ultimate é um DBS monstruosamente, gigantescamente melhor. É sensacional.

Para começar, está a potência. Esquece os números (0-62mph em 3,4 segundos - 0-100km/h é praticamente o mesmo -, 211mph de velocidade máxima, cerca de 340km/h, mas e depois?) e concentra-te no essencial: dá para a usar. A caixa obedece. O controlo de tracção não entra em pânico. É ridiculamente rápido, com aquela sensação elástica, interminável, mas quase todos os pequenos abanos e serpentear que o DBS fazia quando tentava despejar mais de 700bhp no asfalto desapareceram. Finalmente tens confiança para libertar este motor de caça da II Guerra Mundial.

Depois vem o conforto. Uau. Em estradas britânicas, isto está entre os carros com melhor qualidade de rolamento do mundo. Oferece uma suavidade luxuosa a que nenhum GT grande, de motor dianteiro, consegue sequer chegar perto - e, mesmo assim, mantém compostura e controlo, em vez de ficar mole e a “afundar” quando vais a fundo. E quando exploras os modos mais firmes, percebes que aumentam a precisão sem se tornarem insuportavelmente rígidos e úteis só num circuito com asfalto liso como vidro.

Resultado: podes pôr a potência no chão, podes desfrutar das curvas (a direcção também está mais afirmativa e deliciosamente nítida) e, quando não estás a tentar salvar o mundo de um vilão megalómano, o carro é calmo e educado. E, como bónus, toda a gente à tua volta parece gostar de ti. Poucos carros te fazem sentir tão bem contigo próprio. Se esta revisão tivesse chegado há uns anos, a vida dos rivais tinha sido bem mais difícil.

Muito bem, Aston (finalmente)! Mas vale mesmo £315,000?

Não com este interior. Desculpa, eu sei que este já é o modelo antigo e a própria Aston quase admitiu que o DBS era fraco por dentro ao redesenhar por completo a cabine do DB12. Mas se há coisa capaz de estragar o teu dia no Ultimate, é o habitáculo.

Sim, o infotainment datado, emprestado da Mercedes, era um mal necessário. Só que até as partes desenhadas pela própria marca falham. Os botões da transmissão não ajudam, a consola central sensível ao toque é impraticável, os mostradores têm um ar imperdoavelmente barato, não há sítio para pousar a chave absurdamente bojuda, a tampa motorizada da consola tem graça durante cinco minutos e depois só irrita, e nem porta-luvas existe. A visibilidade também é péssima.

A única novidade específica do 770 são os “bancos” de concha em carbono - aqueles instrumentos de tortura a que a Aston Martin chama assentos. Depois de lá estares sentado, são muito confortáveis e dão excelente apoio. O problema é entrar: vais querer chamar uma ambulância aérea para te extraírem do corpo a aresta rígida do apoio lateral em carbono. E vais sofrer, porque o telefone é uma porcaria.

Aposto que isso não chega para te fazer perder o interesse…

Até pode chegar. Mas há um ponto importante: a Aston Martin não se deu ao trabalho de ressuscitar o DBS só por causa de 300 carros. Todas estas lições foram aplicadas ao novo DB12 - um modelo que agora nos deixa mesmo entusiasmados. Pode vir a ser, honestamente, o melhor Aston Martin de sempre.

A única coisa que lhe falta? Um V12. Para isso, precisas do velho Ultimate. Que forma de sair de cena.

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