Será que o Volkswagen Polo GTI não é assim tão bom?
A questão é esta: quando se soma tudo o que o Polo GTI sabe fazer e tudo o que traz, no papel parece um pacote e tanto.
Então é rápido?
É bastante despachado: com uns perfeitamente competentes 204 cv, arranha de 0–100 km/h em 6,5 segundos e segue até aos 240 km/h de velocidade máxima. Isto coloca-o lado a lado com os melhores. E por “os melhores” estamos a falar do Ford Fiesta ST e do Hyundai i20N - os mais brilhantes pequenos hot hatch que se podem comprar.
Além disso, é económico. Sem grande esforço, em condução tranquila, faz cerca de 5,9 l/100 km, e numa utilização normal fica por volta de 6,7 l/100 km ao longo de um depósito. Mais um ponto a favor. E há ainda um sistema de som Beats de 800 watts, portanto, no fundo, vem um bocadinho do Dr. Dre incluído no teu utilitário alemão de ir às compras. Bem jogado.
E as pessoas vão perceber que comprei o desportivo?
Sim, o Polo GTI também tem o visual certo. Em 2022 a VW deu-lhe uma actualização: repara nas novas “alhetas” no pára-choques dianteiro, numa barra de luz LED para sublinhar a largura, a postura e a presença (ai que fofo), e em projectores LED a brilhar através das entradas de ar inferiores. Tens pinças de travão em vermelho-cereja, escape com duas saídas (tubos a sério, não ponteiras falsas) e um conjunto elegante de jantes de liga leve de 18 polegadas em Y. Um pequeno atrevido com pinta de ponta a ponta.
Então qual é o problema?
O Polo GTI cai quase sempre na mesma armadilha.
Um pequeno hot hatch tende a ter um carácter muito marcado: traquina. O Fiesta ST e o Hyundai i20N fazem tudo com aquele humor maroto, ligeiramente malandro. O mesmo acontecia com o Mini Cooper S e o JCW… até engordarem demais e ganharem caras grotescas que parecem uma reacção alérgica a usar um ninho de vespas como passa-montanhas.
Só que o Polo GTI tenta encolher a personalidade de um Golf GTI para caber numa caixa do tamanho de um supermini. E aí está o busílis: gostamos de Golf GTI precisamente porque são hot hatch “adultos”, sensatos, para quem nunca teve uma ASBO nem termina frases com “innit”. Percebeste?
E o novo Polo GTI não resolve isso?
Não - continua a ser um carro estranhamente sem alegria. O mais impressionante é mesmo isso: meter 200 cavalos num carro pequeno e, ainda assim, não te arrancar um sorriso.
Quais são os problemas?
Comecemos pelo motor 2,0 litros, que cumpre rigorosamente todos os requisitos que os engenheiros alemães, tão meticulosos, poderiam ter escrito na checklist. Tem força a rodos e uns sólidos 236 lb ft de binário, muito útil para ultrapassagens, desde as 1.500 rpm até às 4.500 rpm. Resultado: acabas por o conduzir como se fosse um diesel. Para quê esticar rotações? Metes outra relação e deixas o carro continuar a empurrar.
As mudanças não se fazem com uma caixa manual e respectiva manete, mas com patilhas. Ao contrário do Fiesta e do i20N, que são apenas manuais, o Polo tem o trunfo (para alguns) da DSG - é só automático. Como a Renault percebeu há uns anos, enfiar uma caixa DCT eficiente mas, no fundo, pouco emocionante num pequeno hot hatch enquanto os rivais têm manuais precisas e “clicantes” é um corta-pica. Sobretudo quando a caixa decide por si fazer upshift, e quando reduz para uma relação absurdamente curta mesmo depois de tu teres assumido o controlo manual. Gah.
Até o som vem “domado”. Em modo Normal, mal se ouve um ronronar do motor. Metes em Sport e fica o dia inteiro em gwwwwaaaaarrrrr. Sem variações de tom, sem estalinhos, crepitações ou aquele zzzing. Apenas o mesmo berro pelos altifalantes. Gwwwwaaaaarrrrr…
E em curva?
A Volkswagen não foi forreta nas alterações. Um GTI assenta 15 mm mais baixo do que um Polo normal. Desta vez, a VW também reforçou as fixações do eixo traseiro e montou componentes mais robustos na suspensão dianteira. Para uso diário, é um companheiro mais confortável e muito menos “aos solavancos” do que o Fiesta ou o i20N, que são mais duros. É maduro, estável… e continua maduro e estável mesmo quando tu queres ser imaturo e parvo.
Enquanto os rivais te provocam, o Polo quase que te cheira com desdém se tentares obrigá-lo a portar-se mal. E, a estas alturas, a VW já devia ter aceite que o seu sistema de travar a roda dianteira interior em curva - para imitar o trabalho de um verdadeiro diferencial autoblocante - tira acutilância às reacções quando andas mesmo a sério.
Espera lá. Se o Fiesta ST e o i20N são tão extremos, talvez a VW seja esperta ao fazer o Polo GTI mais adulto? Assim fica com esse nicho só para si…
É verdade: se procuras um supermini rápido com maneiras de colégio privado, este é um “one of one”. O irónico é que isso acontece porque o Grupo VW tratou de eliminar os restantes. Já não há Skoda Fabia vRS, e a Cupra não conseguiu entregar um Seat Ibiza com especificação de performance.
Ainda assim, parece uma receita estranha: ser o pequeno hot hatch mais sisudo de todos. É como tentar ser o comediante mais educado do mundo ou a banda de rock mais agradável para os ouvidos. Um pequeno paradoxo.
E o interior?
Os sabotadores malvados que se infiltraram em Wolfsburg e que agora se fazem passar por designers de interiores da Volkswagen esforçaram-se bastante para estragar isto.
Deitaram fora o excelente volante antigo com botões, substituindo-o pelo horrível volante com feedback háptico do Golf GTI actual. E os comandos da climatização ficaram 300 por cento piores com um painel táctil sem sentido.
Felizmente, não sobrou orçamento para trocar o ecrã táctil de 8,0 polegadas por uma das propostas mais recentes da VW (e muito mais lenta). E ainda tens um botão rotativo de volume a sério. Ufa.
Os bancos “tartan” de enfeite têm uns apoios laterais minúsculos, pensados não para te segurar numa curva, mas para os boomers conseguirem entrar e sair sem deslocar uma vértebra. Não há grafismos nem animações especiais - o que até custa a engolir quando te pedem £26,430.
Não é esse o preço normal de um pequeno hot hatch hoje em dia?
Sim, os rivais directos também andam por esses valores. Este VW é, na prática, algumas centenas de libras mais barato do que um Fiesta ST-3. Mas se isso for demasiado barulhento para ti e se poupar dinheiro for importante, então porque não escolher simplesmente um Polo “normal”, bem equipado, com motor menos especial e caixa automática?
Esse é um bom carro, confortável com aquilo que é. O GTI, por outro lado, parece não saber bem que tipo de carro quer ser - por isso, enquanto um Golf GTI é o definitivo “serve para tudo” do dia-a-dia, este irmão mais novo acaba por ser uma espécie de “não serve para ninguém”.
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